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Temos de respirar!

Por: Rafael Ferreira - 21/01/2014
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O corpo humano possui seu limite em todos os aspectos e vai além da dualidade do quente e frio ou do alto e baixo. Casos de greve de fome mostram que o corpo suporta mais de dois meses, todavia, não suporta mais que cinco dias sem água devido à desidratação que pode ser fatal. 
 
Em números, algumas pessoas suportam a redução de 3 a 4% de água do corpo. Só que acima de 10% acontece a deterioração física e mental; e mais que isso, perdas de 15 a 20%, são realmente fatais. Já nos casos relacionados à altitude, acima de 3000 metros, o homem enfrenta obstáculos como falta de oxigênio, frio, desidratação e radiação solar intensa.
 
O lugar mais alto habitado pelo ser humano, se não me engano, são os povoados de mineiros no Monte Aucanquilcha, nos Andes Chilenos, a 5.490 metros de altura, mais do que isso, certamente encontraríamos o panteão de divindidades gregas, romanas, cristãs e por aí a fora.
 
No quesito alimentação, passa-se muitos dias sem comida. As greves de fome de mais de dois meses são exemplos disso, pois a vida sem água é impossível após mais de cinco dias, ocasionando desidratação e uma série de problemas.
 
Na água então, o homem está longe de ser um “aquaman”. O mergulho livre mais profundo - segurando fôlego - é de apenas 72 metros e foi realizado em 92 pelo italiano Umberto Pelizzari. Em 95 o cubano Francisco Ferreras atingiu a marca de 133 metros, mas ajudado por pesos. E em 2004, o venezuelano Carlos Coste ultrapassou a barreira dos 100 metros com a façanha realizada de -102m e -105m logo na seqüência, na disciplina lastro constante (com nadadeiras).
 
Há de se salientar também os pescadores de pêrolas do Arquipélago de Tuamotu. Até eles sofrem dos efeitos da profundidade, pois pescadores mergulham até 40 metros e fazem de seis a 14 mergulhos por hora, ficando cinco minutos na superfície entre um tempo e outro.
 
Casos extremos, não? E qual a relação de todos eles no artigo que redijo hoje? O simples fato de que por mais que o ser humano vá além de seus limites sempre será barrado por uma das forças motrizes da vida, a energia que vem dos alimentos, da água e principalmente do ar. Ou por acaso você conhece alguém que deixou de respirar por 15 minutos? O que neste caso seria uma pausa e não um efeito permanente.
 
O respeito ao corpo é o princípio do compreendimento de uma série de fatores que nos trazem a uma boa prática marcial. E aceitar que a respiração é algo que vai além da sobrevivência é perceber o que seu hara pede; e pede com harmonia em relação ao que se estuda.
 
Durante a prática dos movimentos do Kyujutsu, temos um movimento denominado Hanare. Em nossa escola, entende-se que este instante é “mais do que simplesmente soltar a flecha, o hanare nos faz refletir sobre o suspiro oferecido pela vida em cada instante”. 
 
Durante este “suspiro”, a tensão acumulada no interior da mão direita do arqueiro é fruto da respiração. Tanto é que ao liberarmos a flecha, o corpo segue um fluxo peculiar, como se fosse um livro em que se abre as páginas, onde a mão direita – ao soltar a flecha – vai para trás e o braço esquerdo segue à frente.
 
Respeitando-se os limites do corpo, é sabido que existe um equilíbrio entre respiração e movimento, onde a primeira se divide em quatro tempos antes de puxarmos a flecha. Lembrando que o Hanare, em nossa escola, é feito com os dentes cerrados e a boca semiaberta, como já salientou Shidoshi Jordan Augusto.
 
Ao longo da caminhada até a execução do tiro com o arco a respiração obedece os seguintes princípios:
1. ventilação pulmonar: renovação cíclica do gás alveolar pelo ar atmosférico.
2. difusão do oxigênio e do dióxido de carbono entre sangue e alvéolos.
3. Transporte do oxigênio e do dióxido de carbono.
4. Regulação da respiração.
 
Por isso, atente-se para a respiração, uma vez que o inspirar o ar, permite ao corpo absorver o oxigênio que ele precisa para produzir energia e eliminar o gás carbônico resultante das reações químicas. No caso da forma para estirar a corda e liberar a flecha, atente-se à inspiração, pois nela estará contido o Ki para tal feito. Além disso, ocorreu a contração de músculos particulares a este movimento.
 
Respirando da forma devida, teremos o “Hara como fonte de energia para a concepção do eixo de ligação entre o céu e a terra” e uma compreensão melhor da necessidade de oxigenação de nosso corpo. Claro que as coisas não são tão simples quanto parecem ser, já que naturalmente acreditamos que fazer o “ki entrar no hara” é promover sua entrada pela contração da musculatura do diafragma e dos músculos intercostais.
 
Mas onde está o Hara para se fazer o Hanare? Bom, algumas centenas de vezes, nosso Shibu-cho Thiago Finotti, nos explicou um exercício para tal procura. Disse que “sempre que você não tiver nada a fazer, simplesmente sente-se silenciosamente e vá para dentro do espaço do hara, duas polegadas abaixo do umbigo, e permaneça lá”. Por fim, nos elucidou, já que todos ficamos estupefatos:
 
“Quando caminhe, limite-se a caminhar.
Quando se sente, limite-se a sentar.“
 
Daí saímos do campo corpóreo para adentrar em questões mais filosóficas e claro, zen. E no que se compreende este fato, é não esperar nada do que faz e negar a considerar o que quer que seja, para que se assim faça o que tem de ser feito. “A partir daí, tudo poderá se tornar naturalmente
calmo”.
 
 
Referência:
Aulas com Shibu-cho Thiago Finotti
 
Apostila de Instrução à prática de Kyujutsu
 
AUGUSTO, Jordan. O Silêncio e a Flecha · 1ª Edição. Goiânia-GO, 2006, Ed. Kanji.
 
ASHCROFT, Francês. A vida no limite – A ciência da Sobrevivência. 
Rio de Janeiro, 2001, Jorge Zahar Editor.
 
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