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COLUNAS

Do constante recomeçar

Por: Rafael Ferreira - 23/02/2014
O ato de recomeçar às vezes pode ser doloroso para algumas pessoas, como também pode ser prazeroso. Em verdade, é óbvio, depende de cada um e das experiências que se teve ao longo do percurso. Encontro-me mais uma vez aqui, no recomeço, na atitude de refazer o caminho já feito há alguns anos e assim, dedilhar no teclado algumas palavras que podem servir para alguém… ou não. 
E é incrível como pode parecer simples recomeçar. É o primeiro passo que se dá e assim por diante seguir dando passos, até pegar o embalo e de repente se ver distante daquele ponto inicial. Praticamente remontamos situações de aprendizado, onde uma segunda pessoa olha para você, enquanto você mesmo tenta se equilibrar nas próprias pernas no furor em driblar a gravidade e deixar de engatinhar. 
O mais frustrante do recomeçar é saber que se tivesse continuado, estaria anos luz daquele lugar que hoje, ironicamente, se encontra novamente. Todavia, não se preocupe, já que milhares de outras pessoas também estão aí, na luta por tentarem que algo velho se torne novo. 
Na filosofia temos o conceito de “devir”, que de maneira simples, podemos dizer que é uma eterna constância de transformação. E este recomeçar, visivelmente parece nos levar ao mesmo lugar… será? O lugar talvez sim, mas voltamos com um novo olhar, uma nova proposta, um novo sentimento. Tudo muito novo, mas que no fundo guarda as experiências do errar e acertar.
 Isso me faz lembrar Heráclito que falava sobre a luta dentro da dualidade das coisas. O filósofo dizia “A guerra é mãe e rainha de todas as coisas”. Ou seja, tudo se transforma no contrário do que era, pois há uma eterna guerra de posições e cada segundo já não é mais o mesmo. Nossos sentidos nos enganam ao mostrar que vivemos o mesmo diariamente, que não saímos do lugar e que estamos vislumbrando um caminho de estável e determinado.
Segundo Heráclito, “não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vem e vai”. E a vida segue bem assim mesmo, mas nos iludimos com a mesmice de sempre, o que também acontece com o recomeço.
Ele é como um rio de tentativas. Passamos uma, duas, três vezes, mas em todas elas, serão situações diferentes, com bagagens diferentes. Então, posso concluir que não é tão pesaroso o recomeçar, o que pode deixar o fardo mais pesado é a frustração de saber que poderia ter continuado, mas esta nem de longe é tão brilhante quanto a possibilidade de arriscar novamente.
Esta peculiar frustração me faz lembrar a história dos dois monges que tinham um voto de não tocar ou falar com qualquer mulher. Ao chegarem às margens de um rio, viram uma mulher tentando atravessá-lo. A correnteza estava forte e ela tinha medo de fazê-lo sozinha. O monge mais velho ofereceu ajuda e colocou a mulher no colo para chegar do outro lado. Após um tempo, o monge mais novo disse para o mais velho que não acreditava que havia tocado em uma mulher e quebrado o voto. O mais velho simplesmente respondeu “Há horas deixei ela para trás e você ainda a está carregando”.
 Fazemos isso com nossas frustrações que se tornam um peso morto em nossas jornadas. Ao chegar no momento de arriscar mais uma vez, pensamos tanto que não permitimos compreender a leveza do recomeçar. Essa leveza me cheira aroma do campo, uma brisa de boas novas e oportunidades.
 
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