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Dos Tempos Difíceis

Por: Rafael Ferreira - 01/03/2014
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É incrível como a natureza consegue atuar de forma cíclica. Tudo é feito seguindo uma sinfonia detalhista e refinada que gira em torno de um eixo e segue para um caminho determinado. Passamos por momentos bons, ruins, tensos, angustiantes e em todos eles aprendemos de alguma forma a sermos melhores do que antes ou ainda, não notamos essa diferença.

Ao longo de uma carreira profissional, por exemplo, a pessoa entra no primeiro emprego e se encontra num ambiente totalmente novo. Suponha que um aprendiz de padeiro aprenda na prática o que poderia ter sido ensinado em um curso. Se ele tivesse o curso seria mais fácil, mas neste momento vamos imaginar a pessoa no mercado de trabalho tentando a vida. Ele vai errar dezenas de vezes a quantidade certa de fermento em um pão até que ele encontre o ideal. Neste meio tempo haverá decepção, insegurança, vontade de desistir e até que a epifania venha, serão momentos dolorosos.

É um caso simples, mas para a pessoa que está inserida neste contexto vai doer, vai ser lamentável e vergonhoso. As impressões que temos de nossos erros são geralmente assim por uma imposição que temos da própria sociedade em exigir-se cada vez mais resultado na esteira de produção. O discurso do personagem Charles Chaplin em “O Grande Ditador” (1940) “Não sois máquina! Homens é que sois!”. 

O homem foi tomado pelos processos e inundado pela velocidade das necessidades em primeira instância e consequentemente foi esvaindo de si. Não pretendo me prolongar em processos. Concordo que seja uma palavra que generaliza, mas toma-se como norte os processos em que nós estamos inseridos no cotidiano. Desde um bom dia, até a forma com que agimos na execução de tarefas. Em tempos de dificuldade noto mais ainda a distância que o próprio ser humano criou em torno das necessidades que cultivava. 

Rousseau aponta que o homem tem uma liberdade natural, onde vivia pelos instintos, sem considerar as consequências dos atos. Não era capaz de distinguir o bem e o mal, mas poderia viver por suas vontades. Poderia alongar o enredo chegando à Liberdade Civil, mas paremos por aqui. O que quero mostrar é como esquecemos de ser o que realmente somos. 

A velocidade com que os dias correm, somos tomados pelo desespero em sanar as dores, mas não compreendemos o distanciamento que nos é oferecido por nosso silêncio angustiante. Nos devoramos em nossos medos, não pedimos ajuda e quase sempre aquele que é mais frágil recorre aos barbitúricos ou bebidas e se enfia cada vez mais no desespero cronometrado pelo relógio. 

Este desespero imbui o espírito do homem que não consegue ter a certeza em pisar num solo fértil e ver possibilidades. Pelo contrário, ele projeta toda a mágoa para as possibilidades que, envergonhadas, somem aos olhos dele. No texto do pesquisador José Sávio Leopoldi, sobre sociedades indígenas, encontramos um trecho interessante onde “a maioria de nossos males é obra nossa e (…) os teríamos evitado quase todos conservando a maneira de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela natureza”. 

A vida é feita de ciclos e estes estão imersos no eterno começar e terminar. Tempos difíceis veem e vão, mas a mente humana é capaz de eternizar muito mais fácil o que entristece, amarga, violenta o temperamento. Nos resta lutar contra isso tudo e entender que “é durante a viagem que as abóboras se ajeitam”, como diria Shidoshi Jordan Augusto.

 

Referências Bibliográficas
LEOPOLDI, José. Rousseau – estado de natureza, “o bom-selvagem” e as sociedades indígenas http://revistaalceu.com.puc-rio.br/media/alceu_n4_Leopoldi.pdf

NISBET, Robert. Os filósofos sociais. Brasília: Universidade de Brasília, 1982

ROLLAND, Romain. O pensamento vivo de Rousseau. São Paulo: Livraria Martins, 1960.

 

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