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Quando todos dizem...

Por: Thiago Moraes - 10/04/2014

Desembarquei há pouco em Madrid e me vejo em reflexões, sentado em um dos confortáveis trens de alta velocidade AVE na Espanha rumo à cidade de Valencia.

Ao meu lado no avião viajou um antigo mestre de Capoeira com quem tive a oportunidade de vir conversando. De personalidade viva e empreendedora, me explicou que tem passado os últimos anos em tours mundiais, levando a sua arte aos seus alunos nos mais diversos países.

Intrigado com o conteúdo estudado no Bugei e com a organização vertical e estruturada que temos, sempre com uma atitude respeitosa, ficou espantado ao ver a forma como as atividades da nossa Escola alcançaram uma projeção mundial: “Já sofri muito preconceito. Especialmente no Brasil, quando digo para as pessoas de onde venho, elas torcem o nariz. ‘Vocês não vem da Bahia??’, perguntam. Fico muito feliz de ver que existem outros grupos sérios e dedicados que conseguiram chegar lá. Não estamos sós!”, disse o mestre.

 

Durante nossa conversa, notei que estava diante de um artista já maduro, que em nenhum instante necessitou falar sobre técnicas ou formas. Como de costume, busquei entender o que significava, no meio de todas as possibilidades, o encontro com tal mestre na minha história... talvez uma das freqüentes tiradas que o destino nos faz, no seu estranho humor?

Incrível a necessidade ainda presente do ser humano de rotular. Observo que desde épocas históricas o rótulo da maioria torna-se a verdade das massas. E diante de um enquadramento externo novo, em geral busca-se no amálgama do que a maioria diz a referência da verdade. Daí que posso dizer com a propriedade de quem segue experimentando que romper com uma cadeia secular é tarefa para gigantes!

Seja nos casos clássicos de cadeias seculares didáticos estudados no Bugei, por exemplo, no caso em que o avô, o pai e o filho têm problemas com álcool, dificilmente uma carga inercial deixará de impactar no neto. Seja nos casos mais sutis em que os elementos formadores da cadeia não são indivíduos isolados e de fácil identificação, de uma forma ou de outra se exige uma vontade resoluta para atuar diante desses casos. E engana-se quem pensa que se pode atribuir a causa de uma cadeia secular somente aos traços genéticos. Distúrbios comportamentais, influências desde a tenra infância, formação de personalidade, noções de papéis sociais e idiossincrasias culturais e, claro, questões espirituais exercem um profundo modelar.

Uma pessoa mais velha, na casa dos 70 me diz: “Mas a maioria não pode estar errada! Eu, que sou contra o que o grupo político dominante no Brasil tem feito, só posso estar errado. Não é possível que a aceitação de 3/4 da população sobre o governo esteja errada!”

Será?, penso eu. E o que dizer da Alemanha de Hitler? Das multidões ensandecidas que apoiaram com brados e fúrias a (Santa) Inquisição queimar pessoas vivas sob acusação de heresia – comprovada sob tortura? Da sociedade de pessoas brancas escravistas?

A raça humana tem programada na psique evolutivamente o impulso de alinhar-se com a maioria. Há 20.000 anos, era uma questão de sumária de sobrevivência fazer parte de uma tribo e ter laços sociais positivos. Hoje isso não ocorre da mesma forma. No entanto, é sabido que as modificações biológicas são sempre mais lentas do que as mudanças culturais. Ainda que atualmente tal comportamento não tenha as mesmas conseqüências de outrora, ele permanece!

É necessário estar desperto para observar de forma imparcial as correntezas da maioria e decidir não alimentar o meio que aponta para onde o vento sopra mais forte. O vento constantemente muda de direção...

 

E é necessário um poder de decisão profundamente estabelecido para seguir dia após dia para onde sua verdade interna o leva. Para muitos, é aí que se encontra a sua força de caráter e de espírito!
 

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