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COLUNAS

Da solidão do caminho

Por: Raoni Rosa - 01/09/2014
Nunca houveram tantos seres humanos sobre a Terra. Nunca esses seres tiveram tanta capacidade de comunicarem entre si, instantaneamente. A tecnologia permite que pessoas de várias partes do mundo conversem simultaneamente, trocando áudio, fotos, vídeos. Num piscar de olhos, a um custo irrisório. As redes sociais fazem parte da rotina das pessoas, e a mídia sugere que, se você está fora delas, você está fora do mundo.
 
Mas dizem os antigos que a pior solidão é aquela na qual você está rodeado de pessoas. Em primeira pessoa, dentro daquilo que eu já vivi, realmente existem poucas coisas piores que vocês se sentir sozinho no meio de uma multidão. Multidão de conhecidos, de amigos, de pessoas que dizem que te querem bem, e muitas que realmente querem. Mas você está lá, completamente sozinho.
Alguns especialistas mostram que essa é uma tendência desses novos tempos. Pessoas com muitos contatos, uma enorme rede de relacionamento, mas virtual. Estamos cercados e monitorados o tempo todo, mas, no fundo, estamos sozinhos.
 
Para os mestres antigos, essa é uma constatação talvez um tanto quanto óbvia. O caminho é seu. A caminhada é sua. Pessoas podem estar ao seu lado com você. Mas no caminho delas. Não no seu. O seu caminho, a sua história, por mais compartilhada e dividida que ela seja, será, no frigir dos ovos, sua. Pois a individualidade de cada um faz com que cada pessoa interprete, decodifique e entenda a realidade a sua volta à sua forma. E, com isso, ele emanará para seu exterior essa interpretação, que se tornará, em última instancia, sua realidade. E, essa realidade fará seu caminho. E só seu, pois ninguém mais irá interpretar e ver a realidade como você, independente do quanto você se esforce em explicar.
 
 
Além disso, não podemos esquecer que o universo pessoal de cada um não é uma ampla sala aberta e ventilada. Muito pelo contrário, normalmente o nosso interior é um imenso labirinto, com muitos cômodos ocultos, secretos, muitas vezes escondidos de nós mesmos, onde guardamos coisas que não queremos que ninguém saiba, nem nós mesmos. Nosso ego é muito engenhoso, e sabe como esconder aquilo que não deveria ser visto. Por isso, minha professora de filosofia dizia que não existe auto-ajuda. Ela dizia que ninguém é capaz de se auto-ajudar, pois é comum as pessoas se perderem nesse labirinto e nos jogos criados pelo seu próprio ego. Nessa mesma linha, uma das maiores qualidades de um bom mestre é saber entender o momento do aluno, sabendo a hora certa de colocar o espelho na sua frente, para que ele se veja e se conheça. Fazer isso num momento inadequado pode ser catastrófico...
 
Por isso o caminho do autoconhecimento, da lucidez, é uma via tão árdua. Ninguém tem condições de perceber, em profundidade, nossa realidade. Afinal, ela é a projeção daquilo que nossa mente/consciência (que são coisas muito distintas) percebe e interpreta do mundo. Não há formas (pelo menos que eu conheça, ou já tenha ouvido falar) de alguém entrar em nosso interior, em nosso labirinto interno, e nos dar a mão para sairmos dele. Estamos a sós, com nossos medos, fraquezas, segredos. E, claro, com a luz interna que todos trazemos, a fibra e a força para vencer, que é prerrogativa de cada um. Mas entender e aceitar a solidão da nossa caminhada como um processo natural, como uma condição da existência humana é um grande passo para percebermos e conseguimos colocar em prática aquilo que tanto se diz, que tanto se canta aos quatro cantos: a nossa felicidade depende apenas de nós, e depende apenas de como interagimos com nós mesmos e com tudo o que nos rodeia. 
 
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