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Senpai-Kohai - O novo tempo

Por: Thiago Moraes - 30/09/2014
artigo
Muitos de minha época consideram a relação Senpai-Kohai, ou seja, aquela existente entre uma pessoa mais velha e e um aluno mais novo, uma organização falida. No melhor dos casos, um romance que se esfarinha em pedaços pontiagudos uma vez que a necessidade iminente de mudança bata na porta.
 
Sou daqueles saudosistas que olham para trás e se lembram de ter crescido junto à maravilhosa música dos anos 80 e 90, da explosão do cinema e da sensação de estar diante de um avanço tecnológico de outro mundo ao ver uma impressora de agulhas escrever em papel de formulário contínuo. 
 
Talvez em especial para estes, o passado tem o recorrente e às vezes terrível hábito de se fazer presente. Basta um gatilho em forma de acontecimento, uma fala de alguém, um cheiro, um compasso de uma música, uma técnica aplicada e... pronto! Rememoramos situações e coisas "do fundo do baú" que sem muita licença passam a compor o momento transpondo anos no intervalo de uma sinapse. 
 
De uma forma ou de outra, o paralelo entre o passado e o presente é bem mais ativo do que imaginamos. E fatalmente o mundo vive um conflito entre gerações. Os profissionais mais velhos enxergam a relação com o trabalho e com os colegas de uma forma mais rígida, passaram por momentos de guerras ou de revoluções sociais e tendem a ter receio de perderem espaço, status ou o próprio emprego. A geração de profissionais mais nova nasceu em ambientes financeiramente mais estáveis - tratando de momentos históricos -, tem jovens que preferem ter horários flexíveis, são criativos e gostam de fazer as coisas à sua maneira. Em geral apresentam dificuldades em lidar com hierarquia. 
 
À parte a nomenclatura empresarial dada a cada geração, conflito semelhante ocorre em outras esferas além da executiva.
 
Podemos dizer com segurança que a tônica mais embatida nas Escolas tradicionais, aquelas que buscam a boa educação e o cultivo do bom caráter, é a relação Senpai-Kohai. É a grande coluna vertebral que sustenta o tricotar dos intervalos e sobreposições que existem entre a esfera pessoal do professor ou mestre e a do aluno. 
 
Antigamente era mais simples e, talvez, mais fácil. Um mestre deveria preparar um aluno para torná-lo o mais forte para a vida o quanto possível. E a experiência dos mais velhos ensina que a vida não sorri para todos da mesma forma. Mas aí já está o primeiro ponto: mestre e amigo não se confundiam! 
 
O ser humano é tão complexo que na caminhada de conduzir um aluno, com muitos trechos entre trancos e barrancos, mestres mais vividos buscavam ler cada instante e utilizavam tudo o que fosse necessário para romper os cascos da ignorância, da vaidade, da miopia espiritual... em última análise, do ego! Desde a sutil perfeição do silêncio até agressões e humilhações em público, não existia receita! O bom aluno, sempre escutei do meu mestre, é aquele que busca aprender com tudo ao invés de fazer da revolta e do encher-se de razão a via sacra. Uma vez decidido um caminho e tocando as frequências que lhe são mais características, o próprio caminho se encarrega de aplicar-lhe os devidos testes!
 
Curiosamente, ainda na geração "coca-cola" do descartável, do "se quebrar compro outro", do "paguei, tenho direito", ser aceito por um mestre é um evento insubstituível para os que sonham com a formação em uma Escola tradicional. Para muitos o divisor de águas mais importante! 
 
Antigamente era também um evento significativo para o mestre ter um aluno direto. Significa espiritualmente que um encontro ou um reencontro batia à sua porta, e uma cadeia de alinhamentos fez com que estivessem juntos. Materialmente, significa também que dedicará seu esforço e tempo de sua vida a ajudar aquele que chega, cheio de sonhos em tornar-se bom e de angústias que todo aluno de uma Escola antiga enfrenta. Um samurai deveria estar pronto a qualquer instante para chegar nos últimos extremos pela honra de seu mestre.
 
Nos tempos de hoje, movidos muitas vezes pelo romance de Hollywood, ao menor sinal de dificuldade repensam as prioridades, mudam os compromissos e, nas palavras de um querido amigo professor de Budo (caminhos modernos marciais) que passa por um triste abandono: "trocam o mestre por uma balinha!".
 
Da mesma forma, pela mesma volatilidade de encaixes, casais se separam com a mesma frequência que se juntam, amizades são quebradas facilmente e vemos que o isolamento tornou-se tão intenso e tão presente que raramente nos damos conta do quão sozinhos em geral estamos. 
 
É preciso coragem para fazermos mudanças que alterem nossa rotina, que modifiquem hábitos tão enraizados que determinam mesmo nossos comportamentos. Muitas vezes somos colocados no caminho das nossas fraquezas porque construímos nossa realidade à partir do que conhecemos e estamos acostumados, como explica a psicologia. E com isso muitos vêem a linha do respeito traçada na areia.
 
O mesmo ocorre em relações de forma geral. É nas horas de dificuldade que vemos como nossos limites estão mais ou menos onde achamos que estão. É nossa força interna que decide onde traçamos nossas linhas - de respeito, de ética, de palavra, de compromisso! O bonito é que não depende do outro, todos podemos!
 
E diante disso tudo, pergunto: quanto pesa a responsabilidade de cultivar uma boa relação? Quanto vale a confiança em você dentro de uma Escola, um casamento, uma empresa, uma amizade? Quanto implica um cargo, uma graduação, uma promoção? 
 
Marcel Proust, um escritor francês, escreveu na sua obra mais famosa, Em Busca do Tempo Perdido: "Para ver mudanças, não é preciso buscar novas paisagens, basta olhar com outros olhos.
 
Verifique! Feliz aquele que consegue parar por um momento, escutar, observar... reavaliar e tomar um novo rumo, baseado em lucidez e consciência!
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