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COLUNAS

Haragei - Reflexos em Aiki

Por: Thiago Moraes - 01/10/2014
artigo
Um querido professor de Budo com origem Aiki me perguntou agora há pouco sobre a impostação do ki nas linhas paralelas do Hara quando aprisionados.
 
Por mais que se fale na beleza e na perfeição de Aikijujutsu, a verdade é que o haragei é a base da sua construção e a respiração (não somente no estreito sentido fisiológico humano) é a cola que mantém o domínio frente ao que cerca o praticante.
 
Domínio em haragei não pode se restringir ao controle sobre a força do uke. Certamente esse domínio passa por aspectos outros que compõem a natureza humana: inicia-se com a existência nesse mundo, se move através da respiração e chega aos processos de reflexão e interação. Estes últimos dão origem à movimentos primários, reacionários e reflexivos. 
 
Vejamos, primários quando decidimos, iniciamos e expandimos uma forma de energia que, ao tocar as frequências energéticas do ambiente, com elas interagem. Podem assim ser construtivas, destrutivas ou neutras em diversos conteúdos frequenciais. Por exemplo, um animalzinho que adentra em uma sala chama a atenção do seu dono e o toca dentro de certas frequências tensionais, enquanto outras permanecem intactas.
 
Reacionários quando uma situação chega até nós e, tocados por uma flutuação na energia do ambiente, passamos pelo caminho inverso: a consciência percebe, a mente associa com o arsenal de memórias momentâneo e o sistema nervoso central interfaceia todo o conjunto anterior com os processos físicos. 
 
Cada passagem destas, se analisadas sob uma boa lupa, ao escrutínio, possui um incrível leque de detalhes e conexões, estudado por todos aqueles que buscam uma especialização ou um lugar ao sol em uma Escola de Bugei.
 
Em algum instante, linhas paralelas devem ser percorridas para uma expansão da consciência que permita acessar frequências sutis e sinergias holísticas. As meditações, como estudadas no Bugei, possuem sempre um propósito a cada uma delas associado e são especialmente importantes. Já parou, por exemplo, para tentar perceber a natureza dos pensamentos? De onde vêm, para onde vão, como realmente nos influenciam e como são influenciados? Como se conectam, como são resgatados? 
 
Nessa construção, o haragei deve possuir experimentações flexíveis, porém reflexões exatas e constatações que unam esses dois encaixes como uma argamassa que permite reparos, reavaliações e, não pouco frequente, refazimentos - ou seja, o processo de destruir e fazer de novo, desta vez com outro norte.
 
A via do autoconhecimento, nesse sentido, permite que o praticante se construa à partir da sua realidade interna, e não ao contrário. Assim, somos poupados do equívoco de depender do outro, do inimigo, do mundo externo. Ao invés disso, a autoreflexão implica flexionarmos para vermos nós mesmos. Daí, movimentos primários são justos e atitudes reacionárias estão sempre dentro das elásticas leis dos princípios de Aiki, sem esforço aparente e com uma tranquilidade natural.
 
Em se tratando de Aikijujutsu - já que o Haragei atua diferentemente em distintas Artes no Bugei -, quando aprisionado, antes de tentar sair ou se movimentar, páre por um instante. Escute, veja, perceba o momento... o que ecoa?? 
 
Tal como uma gota em um copo se propaga por todo o líquido naturalmente, nós também assumimos posturas internas quando o ambiente nos toca: é o princípio de uma movimentação reacionária! Diferentemente do que muitos pensam, ela não ocorre quando iniciamos um movimento corporal, mas sim quando estruturas de percepção internas são ressaltadas e acionadas frente a uma energia que nos chega! Ainda em maior profundidade, todos nós temos o veículo para trabalharmos nossa resposta institiva: a consciência! Neste quesito, todos somos dotados da mesma capacidade de orientação. Certamente o caminho para chegarmos nas camadas mais profundas de  nós mesmos é melhor cumprida com a orientação de alguém que já passou por ali, ainda que na sua própria história pessoal e através da sua própria experiência. 
 
E como é possível aprender e ensinar tais mecanismos se eles fazem parte da realidade interna de cada indivíduo? Todas as artes, por mais abstratas que sejam, possuem uma origem em uma época ao longo da história. Aí está a diferença: raiz! De pouco adianta um músico tentar tocar música barroca sem ir até a época, seja pelos reflexos sociais, seja pela essência das obras, seja pela literatura ou por qualquer outro legado. Como posso querer seguir a linha de pintura de mestres como Caravaggio ou Manet antes de buscar entender o que está além das cores e dos traços! 
 
Assim, os olhos, os ouvidos e os outros sentidos se voltam ao invisível, ao oculto, ao fino medo do espiritual profundo, à linguagem dos símbolos, ao sagrado e às correntes atávicas que compõem a transmissão das linhagens. Seja intuitivamente, como nas artes, seja aos olhos da ciência moderna, com a astronomia, a mecânica quântica e o desenvolvimento das teorias unificadoras, é importante lembrar que estamos ainda experimentando um Universo que aos poucos está sendo revelado. 
 
Quando buscamos o haragei focados no entendimento do Ki, já estamos seduzidos. O desejo, a elaboração mental delineia um universo projetado e aí nos perdemos! E seguimos buscando respostas em uma espiral que nunca se encerra, tentando tirar conclusões a partir de algo projetado e não experimentado.
 
A energia simplesmente existe, flui, transforma... antes de buscar ir ao vazio, entender o que vai ao vazio!
 
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