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Lealdade... E aí?

Por: Thiago Moraes - 03/10/2014
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Lealdade e fidelidade são duas das mais valorizadas virtudes em qualquer Escola tradicional de Bugei. Certamente para os mestres não poderia ser diferente - ao menos para aqueles que conheci. Em maior profundidade também para os homens e mulheres que ocupam tal figura, já que não acredito nessa última como um marco implícito de superioridade. Afinal, o rótulo não melhora nem piora o conteúdo da garrafa...
 
São ambas virtudes que representam poderosos indicadores de personalidade e caráter. Digo indicadores porque dificilmente um Professor experiente ou um Shidoushi bem formado tomariam uma primeira ou segunda impressão como definitiva. As constatações mais maduras, que fogem para além do engano do estereótipo das formas, além da maquiagem das distorções comunicativas tão comuns quanto empregadas nos dias de hoje, em geral ocorrem mediante sobreposições de observações em diferentes circunstâncias, ambientações, motivações, condições de poder. Lembro-me das aulas de estratégia (Heihou) com meu mestre, Shidoushi Jordan, há cerca de 15 anos: "Existem poucas formas de se conhecer alguém. Uma delas é dar-lhe poder!"
 
Uma ocorrência é uma pontualidade. Duas são duas. Cinquenta ocorrências de diferentes timbres definem um padrão. Vamos entender com um exemplo: imagine um executivo que faça discursos sobre um bom ambiente de trabalho, que coloque seu nome na capa de projetos comportamentais que melhoram a relação interpessoal de funcionários, que atue como conselheiro e juiz moral de situações entre empregados e que alimente um marketing pessoal de exemplar cuidadoso com os recursos humanos disponíveis. Já viu algum chefe assim? 
 
Agora, o que ocorre quando passamos alguns dias em sua companhia e percebemos que o mesmo executivo não se dá ao trabalho de cumprimentar o porteiro nem a faxineira, mas alguns metros à frente anuncia um largo “Bom dia!” para o presidente da empresa; que não se furta a oportunidade de criticar furtivamente o que não atende a um interesse próprio; que instiga discórdia por trás de um sorriso; que “puxa o tapete” em reuniões daqueles profissionais por quem não tem boa estima? O caso, tristemente, é clássico, não? Um padrão com múltiplos sabores, difícil de ser rebatido com um discurso ou um marketing. 
 
Tema recorrente na psicologia estudada no Bugei, não existe segredo da alma que o comportamento não revele, como disse Lao Tse.
 
Da mesma forma que ética e moral são coisas diferentes, lealdade e fidelidade compartilham a casa do interior humano, porém não são a mesma coisa. 
 
Leal é aquele que não falta às promessas que faz. Fiel é sinônimo de probo, honrado, reto. Fidelidade fala daqueles que têm caráter íntegro. Há uma diferença importante: o cumprimento do que se propõe ou do que se apalavra e o ser dentro das suas próprias verdades. Veja bem, das suas próprias verdades, e não daquilo que ora convém, ora não.
 
Quem de nós nunca ouviu: “Eu sei que prometi, mas as condições mudaram!”? A natureza dos compromissos pelas palavras de um homem ou de uma mulher, se pensarmos por um instante, é que elas são imunes às condições que mudam!
 
Tomando a lealdade como uma virtude, ela pode ser construída. E após construída, fortalecida ao ponto de não mais ser abalada pelo mundo externo. Trata-se em verdade, tal como a busca pela perfeição técnica em um Dojo, de um decréscimo diário, e não de colocar algo a mais. Quer dizer retornar à origem, limpar-se da sujeira que impregna as porções mais inferiores da mente e impede de ver as coisas de frente e claramente. 
 
Todos temos um universo dentro de nós! Criamos nossas próprias regras para ele e separamos uma parte do mundo e a organizarmos à nossa forma. Ao longo deste ano algumas pessoas me procuraram, acompanhadas de uma frustração, dizendo que não conseguiram atuar bem, envoltas em uma sutil crença de que algumas pessoas nascem leais e assim morrerão. Como se imaginassem que existem pessoas escolhidas para serem “retas” e outras que não, e as que não devessem à todo custo projetar a imagem que sim! 
 
Nessas conversas, busco primeiramente escutar. Logo, geralmente vejo que as origens dessa frustração estão ligadas às angústias e traumas mal digeridos, não raro encapsulados e escondidos há tempos em algum cantinho das gavetas das memórias. 
 
Todos podemos mudar nosso norte e despertar um conteúdo emocional saudável e alinhado com o que queremos! E nesse caso, o primeiro passo é acalmar-se, aquietar a mente, o espírito. Logo, entender que tudo se inicia na consciência e, por conseguinte, no pensamento. É a lição de kenjutsu (arte da esgrima japonesa), que ensina que o corte perfeito não é feito pela kissaki (ponta da espada, que possui um alto poder de corte), mas pelo pensamento.
 
Se você não possui a lealdade em seus pensamentos, ela não existirá em suas atitudes e ainda será uma máscara. 
 
Veja bem, uma vez que somos livres, a vida nos cobra o seu preço pelo nosso aprendizado. As leis que governam nosso Universo não estão muito preocupadas com o nosso bem estar ou comodidade. 
 
As pessoas escolhem um lado, se enchem de razão e torcem. Se der errado, sofrem. No fim, resta a expectativa quebrada. 
 
O cuidado com os próprios pensamentos e atitudes pode poupar dissabores, porque da mesma forma que nós somos livres, as outras pessoas também são. Isso quer dizer que nem sempre teremos aqueles que nos são queridos por perto, se agirmos mal para com eles. Se isso ocorreu com você, avalie bem. Depois da tempestade, vem sempre a calmaria. 
 
Ao nos enchermos de razão, nos embriagamos e desligamos algo do bom senso e do bom julgamento. Por isso a importância da higiene interna que se busca com a prática no Bugei.
 
Da mesma forma que a auto-punição e a auto-vitimização criam uma espiral cada vez mais insustentável, a revolta gera uma energia que se expande e tende a destruir os laços de outrora. Quantos de nós já nos enganamos quanto ao resultado de nossa revolta? Nem sempre lembramos que toda revolta é uma atrito que se propaga gerando sérias feridas em nossos sentimentos. Se por um lado pode ser um instrumento de renovação, por outro caímos em opiniões parciais e deturpadas. 
 
E o que fazer com os atritos? Bom, na minha particular e humilde forma de viver, busco aprender com aqueles que considero grandes. Vários deles encontraram as suas formas de abordar as desavenças colocando-as no seu devido lugar, sem ocultá-las e sem fazer das mesmas um ponto de apoio para justificativas entorpecidas. É primeiramente quando você aceita algo - como os próprios equívocos - sem julgamentos ou culpas que você se coloca à caminho de enxergar de outra forma e entrar em uma nova esfera de construção.
 
Um curioso exemplo de expressão é a forma com que Bach, tido como o maior gênio da música de todas as épocas, utilizou o cromatismo musical, utilizando o atrito sonoro e o expressando de forma musical, a dissonância, de forma clara e sensível. De acordo com a grande música Araceli Chacon - por quem tenho profundo apreço -, Bach utiliza a dissonância para expressar nuances de tensão do nosso estado de espírito, avivando com a percepção musical a realidade dos atritos que a todos nós toca.
 
De uma forma ou de outra, prefiro pensar que tudo está em constante transformação. Estar atento à pontos que estimulem a observação, a profundidade, o aprender com os acertos e com os erros. Como disse Confúcio: "Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas." 
 
 
 
 

 

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