home /

COLUNAS

Da nossa relação conosco mesmos

Por: Raoni Rosa - 06/10/2014
artigo

Desde que meu pai foi acometido por uma série de doenças graves e incuráveis, que culminaram com seu falecimento poucos meses atrás, eu tenho observado a importância da forma como nos relacionamos com nós mesmos determinando esse estado de bem estar que gostamos de chamar de felicidade!

Algumas dessas reflexões já foram compartilhadas por meio de colunas. Shidoushi Thiago já escreveu sobre como projetamos a nossa realidade a partir das nossas crenças internas. No seu mais recente artigo, ainda nos lembra dos perigos da auto-punição e da auto-vitimização.

O fato é que não há como fugir de nós mesmos. Por mais que consigamos enganar a todos os que nos cercam, fatalmente, mais cedo ou mais tarde, ficaremos sozinhos com as nossas certezas, verdades, mentiras, fraquezas e medos. Seja por meio de sonhos ou pesadelos, seja durante ou depois de uma bebedeira, seja num momento contemplativo, a vida sempre virá para nós lembrar daquilo que trazemos dentro.

E esse será o melhor momento para reavaliar tudo que aí se encontra. Buscar limpar o que está sujo, colar o que está quebrado, consertar o que não funciona mais, jogar fora aquilo que não deveria estar ali. Nesse instante, essa janela interior permite que busquemos mudar a forma como dimensionamos e olhamos para os nossos problemas. Permite que olhemos para nossas culpas, nossos pesados fardos de culpa que tanto gostamos de transportar, e escolhamos se queremos ou não seguir carregando-os. Permite que novas ideias entrem, mas para isso é preciso abrir espaço para elas, jogando velhos conceitos e hábitos no lixo. E importante, usar bastante o verbo que é título do artigo do Uchideshi Adriano: permitir. Permitir-se ser humano, com erros, falhas, fraquezas. Mas nem por isso acomodado, “esperando a morte chegar”, como diria Raul Seixas. Ciente das limitações humanas, compreender que só depende da forma como concebemos os pensamentos que fazemos sobre nós mesmos é que conseguiremos gerar a força para sairmos da estagnação. Entender que devemos ser justos conosco assim como buscamos ser com os outros. Não julgar ou condenar nossos atos, assim como buscamos não condenar os dos outros. Antes, compreendê-los. E aceita-los.

Enfim, muito se diz e se escreve como devemos nos relacionar com os outros. Com nossos pais, amigos, filhos, irmãos, marido e mulher. Mas poucos lembram que a fluidez, o suporte de cada relação, é o indivíduo. Se ele não se relacionar bem com ele mesmo, como conseguirá se relacionar bem com o outro? A questão é que a maioria vive no modo automático. É mais fácil e simples pensar que só existe o mundo externo, e tudo se resumo naquilo que eu vejo, toco, digo, ouço ou cheiro. O resto é uma “viagem”, como já ouvi por aí.

Uma viagem, por certo. Cujo destino é o mesmo de todos aqueles que aqui conosco estão. Mas que, mesmo com toda a intempéries intrínsecas aos caminhos da vida, faz com que a caminhada seja mais florida e tranquila. Será isso que se concebe como felicidade?

VOLTAR PARA COLUNISTAS