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Emoções! Psicologia

Por: Thiago Moraes - 09/10/2014
artigo

Já se pegou durante o dia tenso por uma situação, por uma pessoa, por um acontecimento? Já reparou que a mente humana (no seu sentido mais inferior), segundo os mestres, atua como uma pulga, saltitando incessantemente daqui para lá, de lá para cá e assim por diante? E mais, que durante o dia todo a mente retorna insistentemente nos mesmos pensamentos?

 

Pois bem, temos apenas aí temas para longas e agradáveis discussões, juntamente com profundas experimentações. Em geral aspectos muito valorizados por aqueles que buscam alguma forma de autoconhecimento! Temas sobre os quais mais cedo ou mais tarde, aqueles que buscam uma saudável relação Senpai-Kohai em uma Escola de Bugei, têm a oportunidade de aprender verdadeiramente com um professor.

 

Mas retornando ao ponto, se você nunca reparou, é fácil fazer algumas experimentações primárias e lúdicas: 

 

  • Experimente passar 30 segundos sem que quaisquer pensamentos ocupem sua cabeça (seu fluxo mental) e levem sua consciência;
  • Em outro instante, tente ficar 30 segundos sem pensar em um morango vermelho; 
  • Depois, 30 segundos pensando apenas em uma cadeira preta; 
  • Depois, 30 segundos sem pensar em nada; 
  • Então, 30 segundos observando tudo o que se passa na sua mente, sem perder o posto de observador!

 

Curiosa a natureza da mente, não?! Se analisarmos bem, perceberemos uma relação interessante entre o grau natural da consciência humana e o ponto evolutivo em que a raça humana está. A evolução cuidou para que, desde milhões de anos atrás, as emoções tivessem papel fundamental na existência (e sobrevivência/reprodução) dos nossos antepassados e na nossa própria. E, ainda hoje, em geral não estamos muito conscientes da sua atuação. A boa notícia é que desde antigamente os mais sábios ensinam que é perfeitamente possível nos conscientizarmos do que ocorre em nossa vida emocional e, até um bom ponto, reprogramá-la! 

 

Por mais que estejamos em uma época de velocidade, de orientação à resultados, de generalizada falta de tempo, também estamos imersos em uma profunda alienação - vive-se todas as horas do dia construindo para a carreira, para o trabalho, para as metas, para atender as expectativas dos chefes (mesmo que você seja o seu próprio), para cumprir os prazos acadêmicos, para pagar as contas.

 

Essa alienação é tamanha que nem sempre percebemos a extensão que ela mesma envolve: por vezes sacrifica-se a relação com o marido/esposa, os filhos, os valores, o contato com o próprio interior - levando a terríveis distanciamentos! Seguir à deriva, com a rotina ditada pelas intermináveis metas e compromissos. Tudo se torna renegociável desde que se justifique! Tudo se torna descartável ainda que se diga que não! Com o tempo, o adormecimento faz com que o próprio sentido de alerta se silencie e achamos normal estarmos fazendo de todo o pouco tempo que temos durante uma vida uma coleção de reconhecimentos apontados por outros e de posses que muitas vezes custam uma vida: a sua.

 

Ainda que estejamos nessa época, as emoções ainda ditam muitas das regras da nossa vida. No aspecto consciência, as emoções atuam mais "por trás da cortina do palco" do que chamando a atenção para si. Isso quer dizer que muitas vezes já tomamos certas decisões, motivadas pelas nossas emoções, e passamos o tempo que gostamos de chamar "estou pensando sobre o assunto" para justificarmos, buscando razões que sustentem o que, mal sabemos ou já sabemos, já está decidido.

 

Incrível a força modeladora que a dimensão emocional exerce sobre nós! É tão poderosa que se diz que toda experiência humana está de alguma forma associada a ela. Se porventura um evento não se relaciona com algum conteúdo emocional, este evento pode ser visto como uma passagem, ao invés de uma experiência. Dentro de uma normalidade, algumas respostas emocionais são passageiras, se mantém apenas por um momento, e outras duram por toda a nossa vida, ocorrendo sempre que um acontecimento a estimule ou que mentalmente retornemos à sua origem. Basta lembrarmos de um sorriso de alguém que amamos, um olhar doce, um abraço que de repente desperte segurança e proteção.

 

Engana-se quem pensa que ter "controle emocional" é o mesmo que se conhecer emocionalmente. Controle implica medida, implica imposição de limites. No entanto, se refletirmos bem, "alguém" necessita efetuar medidas e controlar "algo" que se passa no seu interior. Um dos problemas com essa abordagem é que quando esse "alguém" busca atuar, já está preso pelo próprio conteúdo emocional! Muito se confunde autoconhecimento emocional com a atitude de tentar impor-se sobre as respostas emocionais utilizando o intelecto sobre a emoção! Em minha particular forma de ver, isso seria o mesmo que tentar domesticar um cavalo selvagem em disparada, montado sobre ele, explicando-lhe ao pé do ouvido porque seria "mais recomendado que pare"... Já pensou?

 

Inteligência emocional significa saber abordar sua vida emocional de várias formas, conseguindo ir e vir sem se machucar, sabendo criar, modificar e destruir conteúdos emocionais de forma saudável. Uma dessa abordagens parte da emoção já disparada no cérebro e no corpo - sim, emoções possuem reflexos de grande importância no corpo, tanto imediatos quanto a longo prazo. Nesse caso, podemos trabalhar o que fazer sobre isso, uma vez que a resposta interna já está presente.

 

Um exemplo clássico: uma discussão já ocorreu. Sou motivado por raiva a ir atrás da pessoa envolvida, ou motivado por medo a me afastar da outra pessoa. À partir daí, posso me programar para, em instantes assim, parar e decidir o que vou fazer com a situação que já existe, ao invés de manter uma atitude (interna e externa) movido por um impulso emocional.

 

Esse treinamento envolve experimentações, laboratórios bem orientados que permitam ir moldando de forma saudável primeiramente nossas respostas, posteriormente nossa vida emocional. O mesmo também ocorre na prática em Dojo: cada vez mais exposições saudáveis das nossas respostas devem ser conduzidas, exploradas, experimentadas. Diante dos movimentos de uma espada, não se abalar.

 

Outro exemplo interessante que todos nós experimentamos em alguma etapa de nossas vidas, nesse caso do avesso: repetidas vezes nos pegamos com a lembrança de alguém ou de um acontecimento específico, muitas vezes mesmo imaginário, que nada tem a ver com o contexto que estamos envolvidos (seja contexto externo ou interno), carregada com uma presença emocional que nos prende a atenção e não raro muda nosso humor. Pela ótica emocional - à parte as outras explicações que podemos ter para o caso -, o conteúdo emocional associado à esses disparos internos revela âncoras presentes em cada um de nós que, por sua vez, muito informam sobre traços básicos de personalidade. Em maior profundidade, podemos dizer que os personagens ou mesmo o cenário recorrente podem ser um reflexo que consolida suportes de projeções internas. 

 

É necessário cuidado com os padrões recorrentes que alimentamos. Como disse Friedrich Nietzsche, de cuja visão gosto muito: "Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha de volta para você."

 

Saindo da abordagem autoinvestigativa, muitos foram os que utilizaram recursos como esse nas leituras de personalidade, desde sedutores ao longo da história até militares em busca de padrões de enquadramentos e informações.

 

Todo um universo dentro desses estudos pode ser utilizado para melhorar nossa existência. Saber olhar para dentro e perceber nosso estado interno, saber perceber os gatilhos, entender a natureza do conteúdo emocional associado com cada momento, saber criar e desfazer conexões emocionais conscientemente. Não parece maravilhoso?

 

É parte da nossa natureza humana, ainda pouco entendida por nós mesmos pelo prisma da consciência. Essa é uma das funções maiores compartilhadas entre a meditação e altos princípios de Bujutsu, a arte da guerra. Um dos traços compartilhados por grandes monges, grandes estrategistas (refiro-me ao sentido militar) e mestres da espada.

 

Certamente isso não é tarefa fácil, até porque a origem das emoções humanas é remota e nem sempre possuem um ajuste fino bem regulado para a sociedade de hoje. O Homo Sapiens não evoluiu com Coca-Cola e bolachas cookies na ponta dos dedos, por exemplo. Em escala evolutiva, esse cenário é novo. E aí já entramos no papel das emoções na alimentação e na percepção da vontade de comer... mas já é tema para outro artigo! 

 

De todas as formas, todos temos oportunidades diárias de decidirmos melhorar nosso sistema emocional por vontade própria. Irmos limpando a alma, cada vez mais leve, desfazendo-nos dos pesos e soltando as amarras!

 

 

 

 

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