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A verdade dói?

Por: Raoni Rosa - 13/10/2014
artigo
Tempos atrás estava conversando com uma grande amiga minha, e ela me perguntou:
 
- Estou sendo sincera com você. Essa sinceridade não te machuca?
 
Prontamente respondi que não. Isso não fazia sentido, afinal o que mais esperamos das pessoas que estão ao nosso redor não é que elas sejam sinceras conosco?
 
Refletindo sobre esse diálogo, comecei a me dar conta de que pode não ser tão simples assim. “A verdade dói”. Essa frase é constantemente repetida em novelas, filmes, mostrando sua conexão com nosso dia-a-dia.
 
Sinceridade e verdade andam de mãos dadas. Tanto esta quando aquela têm em seus significados boa fé, veracidade, compromisso fidedigno com a realidade. Conversando com amigos, companheiros mais íntimos, sempre percebo que todos esperam sinceridade, verdade em nossos atos e palavras. Se assim o é, como essa verdade pode doer?
 
No Livro República, Platão nos conta uma parábola que até hoje é tema de debates e estudos: a Alegoria da Caverna. Me permitam uma breve descrição dessa famosa obra, apenas para contextualizá-la. Os humanos estão todos acorrentados, desde a infância, forçados a olhar para o fundo de uma caverna, onde apenas sombras dos objetos são visíveis. E por não conhecerem os objetos em si, as pessoas tomam os espectros pela realidade, vivendo então em um mundo de ignorância. Para conseguir ver a realidade, as pessoas deveriam se libertar das correntes, suportar a dor de anos e anos de imobilidade, escalar um alto muro que as separam do mundo exterior e ainda terem paciência para que sua visão se aclimate às novas condições de luz, permitindo-o assim vislumbrar a verdade, os objetos reais e a verdadeira luz do sol.
 
Tomando a licença de observar essa parábola sob outro ângulo, podemos ver que, além das correntes que nos prendem desde a infância, criamos tantas outras sombras e ilusões durante nossa caminhada. Afinal, quem nunca exagerou numa história para que o final ficasse a seu favor? Ou então não contou aquela “mentirinha” para si mesmo, a fim de aliviar um sofrimento, ou mesmo tirar um peso da consciência? Se refletirmos com sinceridade, veremos que essas atitudes são razoavelmente comuns em nossa vida. Raul Seixas já cantava: “convence as paredes do quarto e dorme tranquilo, sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo”.
 
Retornando à Alegoria de Platão, uma pessoa que tivesse a capacidade de libertar os outros das suas correntes, e os levassem a ver a verdadeira luz estaria em sérios problemas. Porque a visão daqueles que viveram sempre na escuridão sentiria o impacto inicial da claridade, e, inicialmente, aquele que foi libertado poderia até pensar que foi cegado. Dessa forma, agrediria seu redentor até matá-lo. Nesse ponto, vemos o quanto a verdade pode doer. Ao nos fixarmos em nossos valores, naquilo que sempre acreditamos ser verdade muitas vezes podemos fechar nossos olhos ao mundo real, criando um mundo ilusório e particular.
 
Ao criarmos ilusões na nossa vida, alterando a verdade para melhor se adequar à nossa realidade, apertamos cada vez mais as correntes que nos prendem e nos obrigam a olhar para o fundo da caverna. E se alguém tenta nos libertar, falando e indicando a verdade, a dor de ver nossa “realidade” desmoronar pode ser tanta que preferimos matá-lo a encarar nossas próprias mentiras. Daí se vê a sabedoria de um grande Mestre, de um Professor mais antigo, especialmente nas Escolas Tradicionais, que entendem que cada um tem o seu momento. Em outras palavras, não adianta tentar acelerar o amadurecimento de alguém, como é inútil acelerar uma fruta a chegar no ponto. No caso da fruta, ela pode até amadurecer em menos tempo. Mas geralmente é muito menos saborosa que aquela que pôde esperar no pé pra ser colhida na hora certa. O mesmo paralelo pode ser feito para entender as pessoas. E esses mesmos mestres perceberam, desde muito tempo, que ao se virar um espelho para aquele que não está pronto para ver sua própria imagem cheia de imperfeições e sujeiras (ou seja, ver a verdade, ser libertado das correntes), certamente o levará à ira e à revolta contra o emissor da mensagem, ou seja, aquele que tentava lhe ajudar.
 
Embora filmes não sejam referências para nós, alguns são interessantes para exemplificar alguns aspectos. Por exemplo, o filme “Amnésia” retrata muito bem isso. Um rapaz, com problemas neurológicos que o faz perder sua memória recente, vive de suas próprias mentiras, utilizando-as para criar um mundo onde ele está sempre motivado a encontrar o suposto assassino de sua esposa.
 
Mas, novamente, a vida não pode ser tratada de forma tão simplória. Afinal o caminho é de cada um. “Enquanto o mestre aponta para a Lua, o tolo lhe observa do dedo.” Talvez a sabedoria esteja, muito distante de querer libertar aos outros, primeiramente encontrar a própria liberdade... E nesse aspecto, a sinceridade começa de dentro e para dentro.
 
 
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