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O melhor é evoluir!

Por: Thiago Moraes - 17/10/2014
artigo
Durante minha última ida à Espanha, em um dos tantos aeroportos, deparei-me com a cena de um casal de jovens que brigava em público: cada um cego diante da atitude do outro, ambos cegos diante do ambiente e ocasião em que estavam. 
 
Lembrei-me no instante da frase de Belchior: “Não quero o que a cabeça pensa, quero o que a alma deseja.”
 
Curioso, não?! Cena como essa cada vez mais comum, casamentos desfeitos na mesma velocidade que são feitos, funcionários que são apenas números para o alto escalão em empresas, amigos traídos por “uma coxinha” … Decididamente o ser humano está em crise relacional!
 
Será que podemos atribuir a falta de sintonia entre “o que a cabeça pensa” e “o que a alma deseja” a raiz dos males? Como assim? 
 
Em 1944 o filósofo francês Jean-Paul Sartre escreveu Entre Quatro Paredes (Huis Clos), uma peça de teatro marcada pela preocupação com o existencialismo, traço de Sartre. Já ouviram aquela famosa frase: “O inferno são os outros”? Pois é, vem dessa peça.
 
Apesar de bastante adaptada ao longo dos anos – inclusive para versões completamente ligadas ao aspecto traição em casamento, como o caso do filme “No exit”, 2008 -, mantém um enredo básico de três pessoas desconhecidas entre si: duas mulheres -  Inês, insolente e Estelle, leviana - e um homem, Garcin, acovardado. 
 
Bem, os três morrem e inusitadamente vão todos parar em um cômodo fechado, sem janelas, espelhos e praticamente nenhum móvel. 
 
Para eles, o amanhã é sempre a eternidade da presença detestável de outras pessoas com as quais não se queria estar. E o pior é que, quer queiram ou não, irão conviver por todo o tempo. Dá para imaginar vários casos em que convivemos com pessoas que não queremos, sem muita margem de folga, não é?
 
Pode ser visto como um ensaio ou metáfora da vida contemporânea - lembre-se que Sartre escreveu a peça em 44. A peça inquieta profundamente, porque toca o mundo das plastificadas convenções sociais, das tolas vaidades estéticas, das perigosas elasticidades morais e, não menos, faz um passeio pelo reino das hipocrisias, imposturas e dissimulações – e evidencia como transitamos por elas em nossa breve existência humana. Bom, talvez não tão gritante em época de eleições…
 
Há uma cena marcante para demonstrar a parceria entre a futilidade e o desprezo intencional: como não havia espelhos no cômodo – para aflição da vaidosa Estelle – esta precisa que os dois outros lhe digam como está a sua aparência. Nada dizem; calam e a torturam com o silêncio.
 
Através da psicologia, não é difícil observar o triângulo de Entre Quatro Paredes. Garcin precisa do olhar de Inês para legitimar sua covardia. Estelle precisa do olhar de Garcin para manter sua imagem de bela. E Inês precisa do olhar receoso dos outros dois para assegurar sua posição de manipuladora.
 
O trabalho de Sartre viaja no tempo até hoje e nos mostra que, cada vez mais, parece que a única regra é ser percebido. Não importa o que custe!
 
No entanto, sobre isso os mais sábios chamam a atenção para que, ao mesmo tempo que desejamos os olhares para nós para nos afirmarmos em nossas projeções ilusórias, os mesmos olhares tornam-se também um inferno pessoal. Afinal, lembre-se, aquele me olha é também meu carrasco!!
 
Talvez o melhor, em minha pessoal forma de ver, seja saber separar as coisas, os sentimentos, as percepções! Não ser levado a pensar, a sentir, a agir porque o outro assim o faz. Por esta via podemos dizer que à medida que a mente que busca estar lúcida sobe na escala da evolução (digo espiritualmente), vai pouco a pouco conhecendo os caminhos do equilíbrio, da maturidade e do desapego. 
 
Crescer é arduamente difícil. No entanto, não cabe ao outro decidir o que você deve ser! A escolha é sempre sua, porque as consequências também são. Já ensinam os mais experientes que a vida é curta e, em sua efemeridade estão os seres, presos às suas ilusões mais íntimas...
 
Lembre-se: o pensamento é uma força criadora! Ao mesmo tempo, encontra comunicação com o que lhe é par! 
 
Cuidado com seus pensamentos, pois eles se tornam suas palavras.
Cuidado com suas palavras, pois elas se tornam suas ações.
Cuidado com suas ações, pois elas se tornam seus hábitos.
Cuidado com seus hábitos, pois eles se tornam o seu caratér.
E cuidado com seu caráter, pois ele se torna o seu destino.
(Autoria desconhecida)
 
 
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