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Quer ajudar?

Por: Raoni Rosa - 20/10/2014

Os recentes acontecimentos em minha família me deram a oportunidade de refletir sobre muitas coisas. Busco aprender com os sábios que é nos momentos de dificuldades que crescemos, que muitas portas se abrem à compreensão de diversos aspectos da vida que antes nos pareciam obscuros, haja vista que nossa compreensão acerca daquilo que não vivemos é limitada. Nossa mente associativa busca sempre ancorar novos conhecimentos em conhecimentos antigos.  E quando a vida dá uma guinada e tudo parece de cabeça para baixo, a impressão é que tudo flutua, sem ter um local para se fixar. Nesse momento, podemos escolher entre buscar novos conhecimentos para ancorar os novos fatos, ou permitir que nossa mente fique andando em círculos, buscando ancorar naquilo que previamente existia, mas que não sustenta o novo contexto. Claro que cada um escolhe seu caminho, e nenhum deles é melhor que outro, são apenas caminhos.

 

Então, dentro desse novo contexto que se abriu em minha vida, um grande número de pessoas, parentes, amigos, conhecidos, colegas apareceram oferecendo ajuda. De muitos, não tinha notícia de longa data. Outros estão presentes no dia-a-dia. E é interessante notar que cada um, a sua maneira, com suas experiências e vivências, tem uma solução infalível para o problema.

 

Bastante óbvio! Alguns viveram situações semelhantes. Outros nunca tinham presenciado nada parecido. Mas cada um, observando em sua ótica particular, enviesada por suas experiências particulares, imaginava o que se passava com os atores centrais dos acontecimentos. E tiravam suas próprias conclusões, sabiam o que era preciso fazer para “sair dessa”. Muitos chegavam para dar conselhos, outros apenas observavam e conversavam de longe. Alguns mais íntimos chegavam a se exaltar, querendo que suas conclusões fossem seguidas a risca, pois tinham certeza que o que diziam iria ajudar. Será?

 

Até que ponto somos capazes de compreender, verdadeiramente, o sofrimento do outro? Mais que isso, até que ponto podemos entender as necessidades do outro? Será que aquilo que achamos ser o melhor é realmente? Conseguimos, de fora da situação (não importa quanto próximos estamos, nunca estaremos verdadeiramente na pele do outro) ver todas as questões que envolvem aquele problema, e ainda pela ótica particular do outro, conseguindo dessa forma ver o que é melhor para ele?

 

Já diz a sabedoria popular: “muito ajuda quem não atrapalha”. Hoje penso que, mais que querer ajudar, precisamos saber ajudar. Creio que ainda falta um longo caminho para conseguir ver pelos olhos do outro. Mas, compreendendo o quanto ainda falta para chegar lá, creio que devemos antes respeitar as necessidades do outro. Isso significa que, antes de querer dar uma solução, precisamos saber do que a pessoa precisa. Pode ser que a necessidade real dela jamais tenha passado pela nossa cabeça. E, enquanto ficamos propondo soluções mirabolantes, o cerne do problema jamais será alcançado, ou sequer visualizado.

 

E, finalmente, percebo que apenas estando próximo, apenas convivendo, “comendo sal do mesmo saco” (diria minha avó) é que conseguimos, ao menos, nos aproximar também dos problemas, aqueles que ficam guardados lá dentro. E, se realmente queremos ajudar, temos que estar preparados. Primeiro, temos que estar bem. Segundo, temos que ter a mente limpa, sem preconceitos, vendo aquilo que nos é apresentado, e não aquilo que queremos ver. Talvez teremos apenas uma oportunidade, uma pequena abertura, e se a visão estiver turvada com os nossos pré-conceitos, com aquilo que esperamos ver, muito provavelmente não veremos, e, dessa forma, não poderemos realmente ajudar.

 

Refletindo sobre tudo isso, relembro-me de um humorista brasileiro, Geraldo Magela. Deficiente visual, ficou famoso com o espetáculo “Ceguinho é a mãe”. Em um dos seus quadros nesse show, ele relatava o comportamento de várias pessoas quando ele estava aguardando o ônibus. Alguns chegavam muito solícitos e gritavam em sua orelha, perguntando qual ônibus ele iria pegar. Esqueciam que cegos ouvem muito bem... Outros, incomodados por ele viajar em pé no ônibus, quase o obrigavam a se sentar, independente se ele realmente queria. Esqueciam que cegos não têm nenhum problema em suas pernas... Humor a parte, essa estorinha nos leva a pensar: o que realmente um cego precisa? Como posso fazer para ajudá-lo? Talvez o primeiro passo, e mais simples, seja perguntar: o que posso fazer por você?

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