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COLUNAS

Um pouco sobre o livre-arbítrio

Por: Raoni Rosa - 27/10/2014
artigo
“– Você acredita em destino, Neo?
– Não.
– E por que não?
– Porque não sou capaz de aceitar que um homem não faça seu próprio destino...”
(Diálogo entre Neo e Morpheus, no filme Matrix)
 
Livre-arbítrio: expressão que significa vontade livre de escolha, ou decisões livres. Para o dicionário, é a “faculdade do homem de determinar-se a si mesmo”.
Muito discutido entre filósofos, cientistas e religiosos ao longo dos séculos, o livre-arbítrio é um tema bastante interessante e profundo. Para alguns, ele simplesmente não existe, e algumas correntes filosóficas defendem inclusive que o livre-arbítrio é uma incoerência e um termo sem sentido ou significado, até mesmo paradoxal. Deterministas argumentam que não passa de uma ilusão da nossa mente, incapaz de perceber as causas reais por trás das nossas escolhas, e que tudo segue a lei da causalidade. A neurociências trabalha também nessa linha, ao mostrar que muitas escolhas conscientes são anteriormente geradas no inconsciente. E que podemos influenciar o segundo para que o primeiro faça algumas escolhas achando-se livre. A genética e a hereditariedade também buscam, muitas vezes, mostrar que o livre-arbítrio é desnecessário para explicar a gama de comportamentos humanos.
 
Mas a física quântica veio mostrar que vivemos, em verdade, num mundo de probabilidades. E que a observação consciente tem total influência sobre qual probabilidade se concretizará. Sob esse prisma, as leis da causalidade já perdem forças, pois sempre há possibilidades alternativas dada uma mesma condição causal.
 
Do ponto de vista religioso, para as tradições judaico-cristãs, o livre-arbítrio é visto normalmente como uma dádiva divina, que permite aos homens escolherem seu caminho, mesmo que isso muitas vezes o afaste de Deus. Assim, o homem é responsável pelo seu destino, que pode ser, inclusive, independente e contrário aos propósitos divinos. Para as tradições orientais, por outro lado, o conceito de carma impõe aspectos determinísticos na vida, ao mesmo tempo que pregam sermos atuantes e capazes de escolhas que, em última instância, gerarão carmas futuros.
 
Longe desse texto querer exaurir um assunto tão amplo e profundo, uma vez que há uma enorme quantidade de livros em cada uma das várias correntes que foram rapidamente citadas aqui, escrito por pensadores muito mais capacitados que esse autor, minha intenção é apenas levantar um ponto de reflexão: dado a existência do livre-arbítrio, ou não, qual o nosso direito de impor nossos desejos sobre os outros? 
 
Embora pareça uma pergunta estranha, ela é mais comum que aparenta. Quantos de nós, em nosso dia-a-dia, queremos convencer outros que façam aquilo que achamos certo? Especialmente para resolver os problemas alheios, sempre temos todas as soluções, que em nosso universo pessoal fazem todo o sentindo, é obviamente a melhor escolha e, por isso, deve ser seguida. Meu Professor, Shidoushi Thiago, em texto recente, fala sobre nosso instinto de dominação. Sim, é verdade. Parece realmente haver em nós, especialmente quando buscamos refletir pouco sobre a vida e seus processos menos aparentes (o que não faz, de maneira nenhuma, pessoas melhores ou piores, apenas diferentes), um instinto que nos direciona a impor, e a se irritar caso nossos desejos não sejam atendidos. Ou, mais objetivamente, quando os outros não fazem aquilo que achamos certo.
 
Ok, mas e quando dá errado? A desculpa já está na ponta da língua: “mas minha intenção era boa, eu só queria ajudar...” Ah sim, a sabedoria popular já nos alerta que, “de boas intenções, o inferno está cheio”. Ou seja, querer ajudar, ou buscar o melhor para as pessoas não é suficiente. É preciso, antes, aprender a respeitar as escolhas, as visões (turvas ou não), as incoerências e idiossincrasias que nos fazem humanos. É preciso entender que há uma grande diferença entre esticar uma mão para ajudar e arrancar alguém do buraco, como me instruiu meu Professor. Podemos e devemos sempre fazer o primeiro, mas nunca o segundo. A não ser que queiramos ser responsáveis por todas as consequências dessa imposição, e ser responsável por coisas erradas não é uma característica muito comum no ser humano. Afinal, “filho feio não tem pai”.
 
Por isso, é preciso abrir a cabeça para entender que nosso direito termina onde começa o livre-arbítrio do outro. Podemos ajudar, devemos atuar sempre buscando o melhor, mas tendo sempre em mente que, em última instância, cada um é responsável pelo seu destino. E, muito desse destino, é carmático. Assim penso eu, em particular e singular opinião. E não desejo que ninguém a siga, a não ser que se ache confortável em pensar assim.
 
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