home /

COLUNAS

Relações... Do paraíso à podridão

Por: Thiago Moraes - 28/07/2015
artigo
Já dizia Confúcio: “Foge por um só instante do homem irado, mas foge sempre do hipócrita.”
 
Dizem as mais belas mentes que as relações só progridem quando existe liberdade. Isso, por sua vez, não significa agredir os sentimentos de alguém. A via que nos leva a estar bem, feliz, e a que nos rebaixa para miséria espiritual, sentimental, é a mesma. O que muda é para onde nos dirigimos e como atuamos!
 
Quantos de nós ingressamos e alimentamos vidas paralelas – haja vista o second life, a internet, os particulares de facebook e whatsapp, os grupos espirituais “secretos” – onde esquecemos nossa identidade, traímos as escolhas feitas naquele lugar que “um dia foi o mundo real” e abandonamos a honra para com as pessoas que nos acolheram na história pessoal delas próprias?
 
É somente quando tudo desaba, e o próprio chão se abre, que nossos olhos se voltam internamente para as rachaduras sem importância, para os troncos podres disfarçados de pontes de concreto que usamos para nos conectar com as pessoas. São tantas as coisas despercebidas e invisíveis aos nossos olhos que, pela natureza evidencial da vida, tornam-se grandes ao sabor do tempo.
 
Um aluno, que passa por uma situação em seu casamento, me questiona: “Shidoushi, nunca imaginei que atuariam assim comigo! Por quê??” 
 
É inevitável o questionamento quando os mais próximos são os que regem a orquestra do engano. Por outro lado, erramos quando esperamos muito de quem tem pouco a oferecer: cada um dá o que tem, não é mesmo?
 
“Primeiramente acalme-se” – respondi-lhe. Parece uma crise, mas é só o fim de uma ilusão.
 
Essa situação é mais comum do que se imagina. O fluxo normal da mente humana está sujeito à inúmeras represálias contra si mesmo, especialmente quando a inconsequência é o ponto de apoio do uso da consciência. Para uns a santificação - seja de uma figura arquetípica imaginária, seja de um chefe, de um líder, de um superior - representa a cegueira que move o chicote contra os demais, esquecendo-se que é dentro de si mesmo que vivem Deus e o Demônio, o bem e o mal. Em nós, principalmente no que toca a nossa consciência, a vida se encarrega de aplicar-nos de tempos em tempos uma dose de bom senso com o intuito de fazer-nos entender que a nossa verdade acaba onde começa a dos demais.
 
“O Homem é como um tapete: de tempos em tempos deve ser sacudido.” (Ditado árabe)
 
Não acredito em maestria no seu sentido romântico; estamos todos sob as mesmas leis. Ainda assim, vejo que o mundo dos bons, dos verdadeiros mestres, é sensível à necessidade dos outros. Neste mundo, guardam silêncio com suas palavras e pensamentos. Quando agem e se posicionam, há um propósito que constrói. Diferente de um mundo que luta desesperadamente contra a dor, sem saber o que ela é, nem por que ela existe. Neste outro mundo, o mundo comum, atiram disparos e atiram-se para todos os lados em busca de segurança e vantagem pessoal, sem levar em conta que a própria atitude desfaz o propósito.
 
Em princípio, creio que o melhor a fazer é observar com atenção todos os murmúrios, temores, ilusões e desesperos de nosso próprio ser. Talvez nos tornaremos especiais quando aprendermos a observar sobre todos os prismas, principalmente o da dor alheia.
 
A cada dia que passa vejo mais claramente o quanto a individualidade humana é única e deve ser respeitada.
 
Quebrar barreiras muitas vezes nos assusta. Mas saber que somos capazes é muito importante para nosso desenvolvimento pessoal e espiritual. Basta um único minuto para você avaliar a imensidão do infinito, mesmo sem poder entendê-lo. Um minuto somente é suficiente para você ver o caminho, escutar uma frase musical, abraçar sua companheira, sentir o cheiro da flor, tocar a grama, notar a transparência da água, se encantar com a lua e as estrelas, apertar uma mão e fazer um novo amigo.
 
Em um único minuto você pode sentir a tristeza brotar nos olhos, a responsabilidade pesar nos ombros, a vergonha da traição, a amargura da derrota, o frio da decepção, o gelo da solidão, a ansiedade da espera. Em um singelo minuto você pode amar, buscar, compartilhar, perdoar, esperar, crer, vencer e ser melhor. Não é necessário mais que um curto minuto para gerar uma situação e arrepender-se para o longo resto da vida. Pois bem, pergunto: qual a sua resposta ao tempo?
 
Pobres aqueles que adoecem espiritualmente em busca de vantagem espiritual, e cheios de vantagens mergulham em um universo criado mediante os inevitáveis confrontos com poderosas energias e tensões. Estas últimas que, por sua vez, não conhecem nem respeitam as leis imaginárias criadas por homens e mulheres para com a espiritualidade – homens e mulheres que, em seus mundinhos retraídos, particulares, se sentem senhores intocáveis. 
 
Sim, adoecemos ao atuar sob um ego retorcido, quando buscamos utilizar artimanhas justificadas por fazer um bem aparente, enquanto a “trans - aparência” (aquilo além do aparente, o plano de fundo que sustenta o aparente, na psicologia oriental) é a satisfação dos instintos mais primários e individualistas. Adoecemos espiritualmente quando perdemos a capacidade de reflexão e raciocínio por nós mesmos, e como uma esponja absorvemos do meio externo como devemos pensar, comportar, aliar e desafiar. Adoecemos quando, então, sem a pauta da lucidez – um dos pontos mais altos na minha busca pessoal – somos embriagados por acolhedoras e cálidas palavras de sedução. Parece que o que importa é fazer parte, ser aceito! 
 
Adoecemos quando atuamos mal sucessivamente através do engano, da mentira, da traição, e aí encontramos prazer e excitação. No fim, esquecemos que, independente do mecanismo de justificativa, retirando os véus da satisfação da vantagem pessoal, do carisma, de seguirmos e sermos seguidos por pessoas (que por si só caracteriza religião), somos podres por dentro! Podres nas idiossincrasias, nas respostas maliciosas prontas, no real significado dos gestos, nos olhares e sorrisos que como máscaras ocultam o interior… Podres ao vestirmos uma personagem de aluna fiel ou mentor espiritualizado, enquanto percorremos sucessivamente por trás da cortina do palco rodas insaciáveis de prazer violando a dignidade de outros!! Podres ao convidarmos tais energias ou semelhantes para dentro da nossa própria vida e alimentá-las por cima de sofrimento alheio!!
 
“Sinto-me vítima! E neste caso?”, me pergunta o mesmo aluno e me faz enveredar pelas minhas lembranças das aulas de estratégia, matéria obrigatória em Escolas de Bugei. Neste caso, se a história da humanidade ensina algo, é que seria inevitável que se faça um inimigo ou outro no meio do caminho. E se a história da estratégia militar ensina algo, é que nada resiste à um inimigo calmo, tranquilo e experiente, que sabe onde e quando colocar cada coisa, até que não reste nada a não ser destroços e devastação. A serenidade é, verdadeiramente, o melhor caminho para ir para a guerra. “A tendência de ver os outros como menos humanos é universal”, respondi. “O que está na sua mente agora?”, perguntei ao aluno.
 
Para a maioria, senão para todo ser humano, conhecer a si mesmo poderá significar conflito. Torna-se mais simples compreendermos que toda a nossa vida são tipos de encaixes em infinitos conflitos. E você, o que percebe? Existe algum conflito em você agora? Algo que não está como você queria? Em minha forma particular de ver e tomando por base somente minha experiência, vejo que existem conflitos dentro e fora de nós. Se assim o é, pelo menos aqueles que existem dentro de nós cabe a nós resolvermos! Olhe o relógio… é hora de despertar!
 
Lembro-me de Moacyr Franco, quando diz: “Só se vive 9 meses, pois o resto a gente morre.” 
 
E uma aluna então me pergunta: “Shidoushi, mas e os ensinamentos dos antigos mestres? Não são o molde do caminho?” Não!! São parte do todo, mas são apenas uma leitura expressa no mundo das formas! Não são a parte principal. A parte principal passa por: como você olha para o mundo? Como é o mundo através de seus olhos? Como você constrói o mundo dentro de você? Talvez estejam aí os pilares da alfabetização espiritual. Se você está de alguma forma imerso nessa alfabetização, você enxerga o mundo de forma diferente. E essa compreensão lhe dá poder. Lembre-se, o mundo é construído dentro de nós; não está pronto do lado de fora!
 
A questão é que raramente temos olhos para o que existe além das formas primárias. Somos facilmente aprisionados pelas formas e seduzidos pelas sensações. Debatemos conosco mesmos buscando os motivos, culpando aqui e ali, tentando encontrar algo ou alguém que seja capaz de justificar os nossos erros e equívocos. Receio que cada um possa atuar como melhor lhe convier, todavia, é ele ou ela quem estará a sós na intimidade dos seus próprios pensamentos e reflexões, quando sua cabeça toca o travesseiro.
 
É importante termos cuidado com nossos próprios sentimentos e emoções, porque eles aprisionam a mente e inviabilizam a atuação consciencial. É também usual que a mente já esteja aprisionada pela rigidez das determinações que a própria pessoa se impõe. Isso ocorre quando, por exemplo, alguém determina para si próprio que deve estar neste emprego, deve fazer parte de tal religião ou grupo, tem que seguir as instruções de um superior sem reflexão, necessita estar com aquela pessoa por toda a vida, etc. Nesse caso, é impossível levar a lucidez ou simplesmente tirar alguém de um vício! A revolução só pode ser criada de dentro para fora! 
 
Imagine um viciado em drogas ou em sexo, por exemplo – pois, em minha forma de ver, praticamente todos somos viciados em algo, durante algum intervalo de nossas vidas, dada a arquitetura do cérebro humano. Um viciado em drogas pode saber sobre os prejuízos que drogas podem vir a causar, mas suas reflexões já estão aprisionadas e só servem para justificar o “bem” que estão fazendo – nada têm a ver com perceber. 
 
“Perceber o quê?”, pergunta novamente a aluna. Como sua consciência percebe a forma que você está atuando! Se você já parte do princípio que você tem razão, então não há espaço para respirar, para evoluir, para rever: tudo já está resolvido! Traz-me compaixão, às vezes pena, confesso, ver que, diante de olhos imparciais, aqueles perecem dentro da rigidez de sua realidade. Basta dar tempo ao tempo para sua derrocada. Afinal, o tempo, este sim é inequívoco!!
 
Nesse estado - pense agora no exemplo do viciado em sexo, associado à traição - a ignorância prepondera. Enquanto a razão não encontra o bom senso, tenta prosseguir acreditando que possui as respostas, ainda que perdido em seus próprios infernos (da mesma forma, todos temos os nossos infernos em distintos instantes em nossa vida individual). E na ignorância dos rígidos de espírito, julga ter a solução para os problemas e confrontos que gerou e que, quando retornar à casa, a família e os queridos estarão ali, esperando na mesma ambientação de outrora. 
 
Nas possibilidades que ignora, no entanto, em geral machuca pessoas queridas e destrói histórias, matrimônios à sua volta. Quando por fim olha para o seu entorno, percebe o percurso do eu biográfico (aquele que constrói sua linha de vida, também percebida pelos outros), e se dá conta dos destroços e do sofrimento, desperta por um instante. Despertar leva a perceber, e perceber por si só dissolve, ainda que momentaneamente, a ignorância. Nesse instante, a decisão é crítica: retornar ao torpor insistindo nas condutas que ali o trouxeram já seria estupidez, não mais ignorância. 
 
E, como dizia Friedrich Schiller, poeta, filósofo e historiador alemão: "Contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão."
 
Um experiente professor de psicologia de uma Universidade em São Paulo, que tem feito entrevistas para tornar-se um representante da Escola, me pergunta: “...em sua forma de ver, qual a melhor estratégia para que as relações funcionem?” 
 
Primeiramente não usar estratégia! Estratégia tornou-se há um par de décadas a palavra coringa que, para muitos, torna qualquer colocação uma obra prima! Sua raiz, no entanto, é sem dúvida militar. De acordo com o Priberam: 
 
1. Ciência das operações militares.
 
2. [Figurado]  Combinação engenhosa para conseguir um fim. = ARDIL, ASTÚCIA, MANHA
 
"estratégia", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/estrat%C3%A9gia [consultado em 28-07-2015].
 
 
Não acredito que, no seu sentido literal, estratégia seja algo interessante para se nortear em uma relação saudável. Ainda assim, observando a tendência e no bom humor, acredito que em breve leremos nas prateleiras das livrarias: “Sun Tzu e a arte da estratégia contra as sogras”, ou semelhante…
 
Em particular observação, no entanto, se falarmos sobre posicionamento em uma relação, penso firmemente que a verdade é a melhor forma. Esta te coloca acima de qualquer realidade paralela, que se altera à medida que um lado ou outro de uma relação se estabelece como prioritário. Já pensou nisso? Passamos a considerar o outro no nosso futuro quando o outro ganha importância em nossa vida. 
 
Lembra-se dos “troncos podres disfarçados de pontes de concreto”, no início do texto? Podemos dizer que o mesmo ocorre com as relações, seja ela amorosa, amistosa ou mestre-aluno, quando a verdade não é a pedra de sustentação. 
 
 
Talvez em virtude da quantidade e velocidade das informações deste novo tempo, são raros (ou raras) os (as) que se lembram de tudo o que falam e fazem em uma relação. A verdade, pela sua natureza, não o obriga a estar escondendo informações tampouco condutas, recordando, ou mesmo “lendo” em feedback o outro lado, tendo que realizar novas manobras em cima de outras para tentar ajustar as situações. 
 
Há quem diga que a verdade é o ponto mais alto de uma relação. Quando alguém do passado me diz: “Eu não te disse toda a verdade. Espero que um dia me perdoe”, respondo: “Não se preocupe. Você agiu como achou que deveria.”
 
Nas voltas do destino, os mestres ensinam que quando 2 ou mais planos de realidades paralelas e dissonantes atingem uma tensão crítica e se encontram em um ponto de convergência no tempo-espaço, inúmeras possibilidades de caminhos são destruídas violentamente, ao mesmo tempo que outro leque inesperado de possibilidades surge com a mesma intensidade. A questão é: quanto desse novo leque verdadeiramente tem a ver com sua história pessoal ou se encaixa nos seus planos de vida?
 
Como disse Richard Feynman, grande físico norte-americano do século XX: “As pessoas mais fáceis de enganar somos nós mesmos.”
 
 

 

VOLTAR PARA COLUNISTAS