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Iaijutsu: sacar e cortar... Rumo à essência!

Por: Thiago Moraes - 07/01/2016
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Ao longo da história, distintas escolas de iaijutsu e battoujutsu ou que possuem essas em sua grade curricular, desenvolveram distintas formas de raciocínio e aplicação. Uma correta avaliação de qualquer uma delas requer que se esteja devidamente inserido e que se tenha vivido nas atmosferas particulares da tradição em questão.

 

Tradição! Se construirmos a análise a partir daqui, o ponto alto está na manutenção da história e da cultura daquela linhagem – na qual o aspecto técnico é apenas um deles.

 

De uma forma ou de outra, em nossa Escola, diversos princípios sustentam a solidez necessária para a correta execução de cada seiteigata (formas pré-estabelecidas), sendo que as explicações históricas sobre cada um deles determina a expressividade requerida e avaliada por bancas examinadoras em exames de graduação.

 

Antigamente, quando dois ou mais guerreiros se encontravam e daí surgia a necessidade da aplicação de saques certeiros e definitivos, os mesmos estavam além dos limites do seiteigata. A realidade criada internamente durante a prática de um seiteigata é bastante diferente de um duelo real onde cada um protegerá a própria vida. Nesse caso, ensinam os mestres, mecanismos instintivos são acionados e a realidade interna reduz-se a estados absolutamente díspares da arena da prática amistosa em doujou (popularmente conhecido como local de treinamento) ou do seiteigata. Nesse instante, o saque associado ao corte necessita de bem mais que a correta coordenação entre as mãos e a espada.

 

Ainda que o vazio e o cheio sejam princípios de construção de uma técnica madura, saber fluir pelos mesmos necessita, primeiramente, desapego. Quer dizer que à partir do instante em que temos um interesse, nossa mente já está aprisionada. Assim sendo, a atuação se dá por meio de reflexos mentais condicionados, ou seja, interagimos com as intenções do uke (aquele que recebe a técnica) e devolvemos a forma que achamos apropriada. Sempre devolvemos quando estamos presos à mesma realidade que o uke! Por isto, o momento decisivo só pode ser compreendido quando aprendemos a permitir que o uke seja livre: para raciocinar, sentir, decidir e atuar.

 

É impossível chegar nesse estágio através do ego, cuja expansão obscurece a natureza fina e translúcida da realidade: ela é vazia! A atuação através do ego – em geral através de estruturas pré-condicionadas de raciocínio, desejo e apego – tem sempre por objetivo retornar a si mesmo uma energia que o realimenta, e o resultado é uma incessante roda insaciável. A necessidade de eliminar o ego é tão iminente quanto ilusória: ele não existe! Ao mesmo tempo, existe!

 

Aprendendo a tratar o uke com o desapego do respeito, ele atua e acredita vencer dentro do universo criado por ele mesmo – e apenas por ele vivido. Assim, o saque se torna vazio e, por isto, inesperado para o uke. Nada tem a ver com a velocidade pura, ou com o aspecto reducionista técnico: tem a ver com compreender o instante e saber fluir pelas vias dos distintos tipos de ki (clique para ver explicações adicionais).

 

haragei é o divisor de águas que permite saques e cortes limpos, potentes, inequívocos e violentos. Apenas a título de contextualização para todos os leitores e de forma bem superficial, o haragei é a arte que estuda as movimentações de energia no hara, que por sua vez é um centro de convergência e força no ser humano. Cortar o ar nada tem a ver com cortar objetos sólidos, não homogêneos, tampouco com as reverberações que ocorrem quando duas espadas de aço se tocam e o impacto que protege os contendedores é inevitável. A sustentação da força deve surgir do hara, que ao mesmo tempo que é suporte para o corpo, é caldeirão que transforma os impulsos em serenidade, permitindo um tipo particular de força interna.

 

No âmbito físico, no caso particular de saques diagonais ascendentes – chamados de gyaku kesa nuki – um erro comum é o desencaixe postural da coluna e do quadril, buscando uma extensão do braço direito em desequilíbrio, que por sua vez necessitará do peso equivocadamente distribuído na perna da frente, para fora dos limites de equilíbrio. Não raro a sucessão do erro faz com que o giro do quadril se torne excessivo, isolando o hara e impossibilitando o corte, o ai uchi (golpe mútuo) ou uma reposição defensiva sucessiva.

 

Já o tempo correto de uma técnica perfeita não tem a ver somente com movimentar-se de forma rápida, mas sim com saber fluir dentro dos vários vazios – simples e compostos – que surgem quando tori (aquele que aplica a técnica) e uke se encontram. Encontro este que pode ser real ou vivido internamente através do metsuke (olhar interno), por sua vez imprescindível para aqueles que buscam aprofundar-se nos temas de bujutsu (artes de guerra). (Clique para ver outras explicações sobre princípios internos).

 

Em qualquer um dos casos mencionados, outro equívoco dos que buscam velocidade é a contração excessiva do hara estagnando ou “empoçando” o ki na parte superior do corpo – distintas variações disto ocorrem no abdômen, costas (latissimus dorsi), cintura escapular, braço, antebraço, mãos e dedos. o mais correto seria “assentar” corretamente o hara levando o ki para baixo, deixando a parte superior do corpo livre, leve e desimpedida.

 

Por outro lado, extrapolando os limites de iaijutsu e analisando por um viés de bujutsu, é sensato avaliarmos que saber cortar com uma lâmina não necessita conhecer bem técnicas de espada. No entanto, a estrutura técnica de um corte correto com uma katana (antiga espada japonesa) necessita critérios, que, enfatizo, são particulares do desenvolvimento e refinamento de cada escola de esgrima.

 

Particularmente em nossa Escola, já no caso de corte com ambas as mãos posicionadas sobre a tsuka (empunhadura, cabo da espada) vários critérios técnicos se encontram na mão esquerda: posicionamento, utilização, contração, recrutamento de fibras, disposição dos dedos, geometria e imposição. Assim, o papel do dedo mindinho da mão esquerda está ligado à sustentação do desenho do corte, sendo fulcro para a atuação do hara em diversos momentos. Logo, para uma técnica (não somente um corte) ser considerada correta e eficiente, não basta que seja executada sem interrupções. Longe disso, a técnica deve atender às estruturas biomecânicas e às origens antropológicas que deram sua origem.

 

Uma importante conclusão é que correm grande risco aqueles que acreditam que a repetição é um caminho para o êxito. Cuidado: da mesma forma que ocorre com a repetição técnica, a repetição mental das mesmas verdades – especialmente quando nos sentimos mal encaixados em alguma situação na vida – cria um universo interno cada vez mais denso, irreconhecível para um eu lúcido, tornando o indivíduo um uke de si próprio!

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